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Sobre cotas e outras coisas

manifesto cotas

Já se passaram alguns anos, mas ainda me lembro o quão estressado fiquei quando fiz vestibular. Dormia pouco, quase nada. Sair, namorar, encontrar os amigos, nem pensar. Vivia para os estudos, mas de certa forma valeu a pena. Eu cheguei lá.

Estudei minha vida inteira em escola pública, portanto, sou testemunha do quão falho é o sistema. Embora a minha escola tenha feito comemorações, oba- oba, festa com presença de autoridades quando da nossa aprovação, minha e de mais umas dez pessoas no máximo, o que é nada para uma escola de mais de três mil alunos, tenho a consciência nada modesta, confesso, de que a minha vitória deveu-se muito mais a méritos meus. No entanto, se fosse hoje, coitado de mim. Teria que me esforçar o dobro do que me esforcei, o que, cá pra nós, seria desumano. Tenho um problema: sou branco. Tive azar. Meu pai é negro, meu avô negro também, meu bisavô, vixe, era um negão, mas eu, pobre de mim, não sei se por birra de Deus ou da miscigenação, nasci branco.

Embora já tenha feito um preâmbulo do que vou tratar nesse artigo, e de certa forma adiantado a minha posição sobre, gostaria, antes, de tentar contribuir no sentido de desfazer equívocos quanto à base legal das políticas de discriminação positiva. Mesmo não sendo especialista em Direito, espero que me permitam a pretensão. A Constituição Federal de 1988 declara expressamente no caput do seu Art, 5º que “todos são iguais perante a lei, sem distinções de qualquer natureza...”. O que eu tenho percebido nas discussões que venho travando sobre o tema é que há, mesmo nos meios intelectuais, compreensões simplistas e rasteiras a respeito do supracitado princípio da isonomia. A igualdade aqui preconizada, e essa já é uma questão pacífica no Supremo Tribunal Federal, há que ser compreendida de forma a se tratar os iguais de maneira igual e os desiguais de maneira desigual, na medida das suas desigualdades. Não fosse assim, a própria Constituição não estabeleceria discriminações, como por exemplo, o tempo de aposentadoria diferenciado para homens e mulheres, a proteção do mercado de trabalho da mulher, a garantia de um percentual de vagas em concursos públicos para deficientes, etc. Portanto, as políticas de discriminação positiva, ou ações afirmativas, como preferirem, extraem sua base legal do próprio texto constitucional, isso não questiono.

O ponto que pra mim não é pacifico é estabelecer a questão raça, cor, como fator de desigualdade. É claro que o nosso país é preconceituoso, embora seja politicamente incorreto admitir, o fato é que é. Mas daí a positivar o preconceito, transformá-lo em lei, em políticas públicas, acho que é dar um passo perigoso. A África do Sul e os Estados Unidos fizeram isso, e as conseqüências não foram as mais alentadoras.

Sem se falar que a discussão em torno do assunto tem se dado de maneira irresponsável. Acredito que esse debate tem que sair das casas legislativas e tomar as ruas, permearem o cotidiano de cada um de nós, para chegarmos a uma conclusão satisfatória. O que tenho percebido com uma dose áspera de pesar é que as políticas de cotas no Brasil, assim como praticamente todo assunto importante, têm servido muito mais de palanque eleitoreiro para políticos mal intencionados que as usam para “ficar bem” diante de determinados grupos sociais. Basta ver, por exemplo, o alarde feito no governo Fernando Henrique Cardoso quando da indicação da primeira ministra mulher, Hellen Gracie, para o STF. Não menos alarde fez o Governo Lula, quando indicou o Ministro Joaquim Barbosa, primeiro negro a compor o Supremo. A impressão que ficou é que os parâmetros utilizados foram de gênero e raça e não o de notório saber jurídico e reputação ilibada como prevê a constituição.

ellen-barbosa Joaquim Barbosa e Ellen Gracie: indicação com critérios de gênero e raça? 

Acho que esse é um assunto sério e que deve ser discutido de maneira mais responsável. Repito, sou favorável à política de cotas, desde que sociais, até mesmo porque não podemos desprezar as peculiaridades do nosso país. Como definir o que é ser negro num país como o nosso? Os defensores da política de cotas acham que esse é um argumento rasteiro e supérfluo, no entanto, ainda não apresentaram, se é que isso é possível, um parâmetro minimamente aceitável. Acho que temos que nos preocupar, antes, em levar a educação mais a sério, e isso independe de questões raciais. Por exemplo, no Brasil há uma inversão que seria irônica, se não fosse trágica. A classe média, e aqui não importa se negros ou brancos, cursa todo o ensino fundamental e médio nas escolas particulares e vai fazer faculdade nas federais. Enquanto o restante da população, também não importa se negros ou brancos, estuda o ensino fundamental e médio sofríveis na rede pública e depois tem que pagar pra fazer um curso superior.

Portanto, quero deixar claro que não sou contra a política de cotas, pelo contrário, sou um entusiasta das cotas, mas, desde que sejam cotas sociais. Por outro lado, abomino as cotas raciais. Reconheço a injustiça histórica a que o povo negro sempre foi submetido no nosso país, mas acho que isso não justifica o cometimento de uma nova injustiça. Imaginem vocês, um professor, numa sala de aula com dois alunos que moram no mesmo bairro, os pais trabalham no mesmo emprego, ganham o mesmo salário, ou seja, tem existências idênticas. Aí a professora fala pra um “você tem cinqüenta por cento de chance a mais de cursar uma universidade do que ele”. E outro pergunta, “mas por quê?”. Ao que ela responde, “porque ele é negro e você é branco”. Com as devidas vênias dos que discordam, acho que o caminho não é esse, mas estou aberto para que me provem o contrário.

J. Dannieslei

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Só instrução não basta

desemprego

Hoje em dia qualquer jovem que saia do segundo grau e ingresse numa faculdade, tem em mente a utópica futura consecução de um emprego digno e que conte com um salário a contento para suas necessidades. Para isso, esses jovens se entregam a sacrifícios muitas vezes homéricos para completar os estudos: enfrentam estágios sem qualquer acompanhamento ou, mesmo, atrelamento com a área de formação e que mais parecem um regime escravo; trabalham de dia e estudam á noite para custear as muitas despesas; moram, muitas vezes, em condições abaixo das necessárias para o seu bom desenvolvimento físico e intelectual, dentre outros absurdos. Quando finalmente se veem formados, esses jovens pensam: “ufa! Valeu a pena. Agora, pelo menos, eu tenho um rumo…”

O problema é que “na realidade a teoria é outra”. Muitos jovens no mundo inteiro, mesmo qualificados e aptos à trabalhar, têm sido preteridos nos processos empregatícios, e muitos são os exemplos disso. Hoje mesmo, ao ler um artigo na Folha de São Paulo, deparei-me com a triste notícia de que existem 7 milhões de jovens entre 15 e 24 anos que, por mais que se esforcem, não conseguem se firmar nos mercados de trabalho na América Latina. Em outras palavras, temos milhões de trabalhadores iniciantes que, mesmo se jogando ás garras do mercado, não atingem as expectativas que nutriram durante seu processo educacional. E isso, logicamente, acaba se tornando uma frustração e um problema. 

O emprego dos jovens é um desafio político, porque, quando essas expectativas são traduzidas em desânimo e frustração, se torna mais difícil a estabilidade de nossas sociedades e até mesmo a representatividade e a governabilidade democráticas. […] Além disso, existe o problema da relação com a vida profissional, pois, quando os jovens não têm oportunidade, dificilmente conseguem quebrar o ciclo de pobreza e trilhar uma trajetória de trabalho decente. Estaremos desperdiçando o talento e a capacidade produtiva necessária para alcançar o crescimento econômico.

Para piorar a situação, os jovens foram o grupo mais golpeado pela crise de emprego do ano passado. Indicadores compilados pela OIT [Organização Internacional do Trabalho] mostram que em 2009 a taxa de desemprego dos jovens aumentou mais do que a dos adultos, enquanto diminuiu a sua participação nos mercados de trabalho […]. Estima-se que mais de 600 mil jovens passaram a engrossar as fileiras dos desempregados devido à crise. Fonte: Folha de São Paulo 

Ou seja, os jovens estão mais desempregados do que os adultos. E essa discrepância é, de fato, preocupante. Afinal, a nossa estrutura social não pode sobreviver sem a renovação dos seus quadros de trabalho. Hoje em dia a entrada do jovem no mercado, pelo menos no Brasil, se dá muito por intermédio de indicações e privilégios! A boa formação e a aptidão pessoal, em alguns casos, por incrível que pareça, conta menos do que um bom “contato” feito na época da faculdade…

Não que as relações sociais sejam “erradas” quando se trata de mercado de trabalho. Pelo contrário. Precisamos conhecer pessoas, trocar experiências e mostrar os potenciais que temos. No entanto, isso não pode funcionar como uma “máquina de privilégios” e concessões descabidas. É preciso que os empregadores contratem jovens realmente preparados para o exercício das funções específicas das empresas, e não simplesmente porque conhecem o “primo do irmão do neto de Beltrano”.

É preciso, então, que, além de uma maior quantidade de vagas, os jovens também tenham acesso a empregos com maior qualidade, tanto no trabalho em si quanto no processo de seleção dos novos empregados. Da mesma forma, políticas públicas poderiam incentivar ainda mais as empresas a investir em jovens talentos, criando, assim, uma cultura de manutenção do jovem no mercado do trabalho.

Em outras palavras, o que precisamos com urgência é pensar em alguma coisa para mudar definitivamente esse quadro. Porque, como eu disse no título desse texto, só instrução não está bastando no momento.

Henrique Oliveira

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Nós e os nossos fuzilamentos

pelotao-de-fuzilamento

Quase sempre me decepciono com os finais, mas pouco me importa, o que eu gosto mesmo nos romances é a maneira como eles se iniciam. Sou o tipo de leitor que se convence a seguir em frente na primeira frase. Caso ela não me cative, não desisto, mas vou adiante com a amarga impressão de que a caminhada será árdua.

Não li tantos livros quanto gostaria, tampouco, quanto deveria, mas até hoje, para mim, ninguém conseguiu começar um romance de maneira tão magistral quanto Gabriel Garcia Marquez em “Cem Anos de Solidão”. Volta e meia, distraído, pensando em nada ou em coisas desconexas, suas palavras me voltam à memória: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía, havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

A beleza poética dessas palavras, ao primeiro olhar, tão singelas, me marcaram profundamente. A forma como o autor entrelaça o futuro, “muitos anos depois”, e o passado, “naquela tarde remota”, fazendo-os se confundirem no tempo presente, deixam a impressão de que é possível unir os dois extremos do tempo, numa lembrança que ainda nem chegou; ela só virá “muitos anos depois”. A cena por si só é muito marcante. Imaginem vocês, um coronel, diante de um pelotão de fuzilamento, assolado pelas lembranças de uma tarde e do gelo.

Sinto um prazer indescritível, quase orgástico, sempre que inicio a leitura de um romance. Muitos deles transformaram a minha vida. Embora saiba que existem aqueles que discordam, tenho a impressão de que fizeram de mim uma pessoa melhor. Lembro-me que morria de rir sempre que alguém me dizia chorar lendo livros. Isso até verter lágrimas copiosas com “Os Miseráveis” de Victor Hugo e as “Grandes Esperanças”, de Charles Dickens. Quantas vezes minha mãe não bateu desesperada à porta do meu quarto, achando que, após tantos sinais, eu estava finalmente enlouquecendo. Mas não. Eu estava apenas gargalhando sozinho, ou melhor, acompanhado pelo “Retrato de Doryan Gray”, do Oscar Wilde. Devo muito à literatura. A minha maneira de ver o mundo, de fantasiar a realidade e de realizar minhas abstrações.

Hoje um pouco menos, mas sempre fui um freqüentador assíduo de bibliotecas. Engraçado, nunca entrei em uma biblioteca sem esbarrar na frase de Monteiro Lobato, “um país se faz com homens e livros”. Também, nunca saí de uma biblioteca sem pensar em que país estamos fazendo. Não quero me apegar a números oficiais, estatísticas ou qualquer coisa do gênero, até mesmo porque sei que as nossas não são as melhores. Queria apenas desabafar a minha frustração, enquanto cidadão brasileiro, de como a educação de uma maneira geral e o estimulo à leitura, de maneira especifica, são tratados no nosso país. Tudo bem que faltam as tais políticas públicas, mas também, sinto que falta um interesse pessoal, individual, de cada um de nós, em extrair o que esse mundo mágico, para usar um jargão, nos oferece de melhor.

Enfim, disso tudo, para que esse texto não pareça apenas uma junção desmedida de palavras inócuas, desprovidas de sentido, gostaria de deixar uma reflexão. Gostaria que nos perguntássemos do que nos lembramos, quando nos vemos nós, diante dos pelotões de fuzilamento cotidianos. Confesso que tenho medo das respostas e por isso, mesmo correndo risco e talvez tendo até a certeza de que no final irei me frustrar, não me abstenho de começar.

J. Dannieslei

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Conservadores e o “medo” da educação.

conhecimento

Por que nossas elites têm tanto medo de uma população educada e bem instruída? Será que essas populações, quando bem formadas, podem de fato alterar os rumos de uma Nação? Acredita-se que sim, senão, não se menosprezaria tanto o ensino, a cultura e o saber. Tivemos vários exemplos de educadores que lutaram, por vezes, morreram na busca por melhores condições de educação para o conjunto da população. Apenas para citarmos dois, lembremos do baiano Anísio Teixeira (1900-1971) e seu projeto de Escola Integral (escola-parque) e do pernambucano Paulo Freire (1921-1997) que dizia que a educação tinha potencial libertador (de emancipação humana).

Pois bem, passaram-se anos, décadas, e estes e outros tantos educadores se foram e o ensino público neste país continua jogado ao ostracismo. Claro que atitudes pontuais sempre existem. Sempre haverá um caso bem sucedido, que pode facilmente ser usado em uma reportagem sensacionalista ou que apenas apresenta cenários positivos, onde um aspecto isolado se sobrepõe ao todo. Todavia, quando se fala de coletividades, o olhar tem que ser outro. Temos que ampliar o horizonte de análise, aumentar o campo de visão. Tentar apreender o máximo de possibilidades. Sim, estamos falando aqui da educação assentada no âmbito escolar.

Mas, claro que a educação é mais do que isso. Ela se desenvolve em casa, nas relações e interações sociais, na rua, no trabalho, no lazer, na comunidade, etc. Ou seja, a educação é muito mais que a Escola, é verdade, mas, porque as elites desse país têm medo de uma boa Escola Pública? Um caminho de resposta plausível para essa questão dá-se pelo fato delas manterem uma forte estrutura conservadora de pensamento e de prática de vida. Mesmo que se declarem “progressistas” e “liberais”, isso, no geral, apresenta-se apenas como um discurso vazio, descolado de suas práticas cotidianas. Basta ver como elas reagem diante de projetos que são criados para construção de uma boa formação educacional ou, pelo menos, para que se distribua melhor o acesso ao conhecimento. Afinal, é mais fácil governar e controlar uma população pouco instruída.

Citaremos dois casos emblemáticos e polêmicos: o programa nacional de reserva de vagas, “cotas”, que volta e meia é posto na vitrine, mas que, no fundo, é muito pouco ou quase nada debatido. Termina aparecendo algum “especialista” em alguma coisa e monopoliza a questão, com argumento de autoridade, sintetiza tudo dizendo que tal programa é anticonstitucional ou é “racista”, por restringir o acesso ou qualquer outra baboseira. O segundo caso, menos conhecido, trata-se da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) do MST. Uma escola praticamente auto-suficiente, com trabalho coletivo, horta comunitária, restaurante coletivo, biblioteca, auditórios, criação de animais, formação política, social, cultural e agrícola. Quer dizer, uma Escola exemplar, que, de fato, desenvolve a Educação no sentido ampliado do termo, mas que, vez ou outra, é criticada ferozmente pelas elites do país (e pelos seus meios de comunicação de massa).

Por fim, diante de uma rocha de valores arcaicos e retrógrados, cujo olhar está sempre voltado para os próprios umbigos, como poderemos falar em melhorias e mudanças sociais? Estarão essas elites dispostas a cederem espaços (físicos e simbólicos) para a massa pobre/trabalhadora? De outro lado, estarão dispostos a alimentarem o “inimigo”? Pois conhecimento, educação é poder, é libertador. E aí, eles irão correr esse risco? Pensem!

Bruno Durães

A coluna Sociedade vai ao ar todas as segundas-feiras aqui no Incomode-se. Acompanhem!

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Protesto ou excesso?


Depois de uma decisão de fechar as portas de algumas salas de aula em escolas maternais, o Ministério da Educação francês teve uma dor de cabeça, digamos, bastante forte: os pais dos alunos, para protestar contra o fechamento das salas dos filhos, resolveram, nesta quarta feira, manter como reféns oito professoras de duas escolas maternais no sudoeste da França.

Segundo o governo, o fechamento das salas de aula se deu porque o número de crianças matriculadas nas turmas era menor que o mínimo tolerado. No entanto, os “manifestantes” alegam uma situação bem mais complicada do que a que se lê nos números. Conforme publicado pelo portal UOL notícias, os pais revoltosos afirmam que “a classe dos filhos teria sido extinta porque faltariam apenas dois alunos para atingir a cota estabelecida pelo governo. [...] ‘O mínimo de 49 alunos para três salas de aula não foi atingido. Há 47 crianças para o curso e por isso foi decidido o fechamento de uma das classes, para a qual uma professora havia sido contratada’, diz Jean-Charles Sutra, vereador e responsável pela comissão escolar da cidade, que também protesta contra a decisão do governo”.

Em outras palavras, o governo francês parece ter confiado demais na frieza dos números e esquecido de analisar a questão humana envolvida no fechamento de parte importante de uma instituição social, como é a instituição escolar. Pais de alunos que, além de preocupados com a educação das suas crianças, dependem da rotina escolar para poder trabalhar sem “abandonar” seus filhos em casa, se desesperaram com a notícia do fechamento das turmas dos filhos. E, num impulso exageradamente agressivo, tomaram a drástica decisão de sequestrar os professores. “Até então, somente empresários haviam sido ‘sequestrados’ por empregados na França. O motivo é geralmente tentar impedir demissões e negociar indenizações trabalhistas. Após o agravamento da crise, a França registrou diversos casos de executivos mantidos como reféns. [...] Esta é a primeira vez, no entanto, que pais de alunos mantêm professores como reféns para protestar contra iniciativas adotadas pela direção da escola, sob orientações do ministério da Educação”, publicou o Uol notícias.

O que percebemos é que estes pais franceses exageram no direito de protesto e incorrem em uma prática criminosa: segregar a liberdade das outras pessoas, num país democrático, não pode ser a melhor forma protesto. Com certeza a violência da ação chamou muita atenção e pode, até, ter sensibilizado a opinião pública para a questão, que é deveras delicada. Porém, não se pode dizer que os pais revoltosos estejam com a razão...

A polícia francesa já está monitorando o caso e afirma que, se o cárcere dos professores ultrapassar 24 horas, os pais poderão ser enquadrados por sequestro, sendo presos e punidos severamente... Resta ver a que horas brotará o bom senso nisso tudo!

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O que é preciso para que os políticos olhem para a escola pública?

Estava eu navegando pela Internet quando, no Twitter, vi o seguinte recado: “conheça o abaixo assinado de apoio a lei que determina que filhos de políticos frequentem escola pública”. De cara fui tomado pela curiosidade e parti para checar o link. Realmente existe um abaixo-assinado (clique no link), que pede apoio a um projeto criado pelo Senador Cristovam Buarque no qual se exige que os filhos dos nossos agentes públicos eleitos sejam, obrigatoriamente, matriculados no ensino público até 2014. Veja o que diz o texto introdutório do abaixo-assinado:

[...] conscientes da existência do Projeto criado pelo Senador Cristovam Buarque que exige que os filhos de políticos sejam matriculados em escolas públicas, e que não chegou nem mesmo a ser votado (embora tivesse sido entregue ao Senador Antonio Carlos Valadares para que fosse relatado), exigimos que o Senado Federal tome consciência desse projeto e que façam a votação favorável a ele.

Essa exigência de nossa parte se pauta no ideal de equiparação e indiscriminação, assim como na nossa crença da necessidade de acesso universal ao ensino público gratuito e de qualidade. Acreditamos que, em um país em que a Educação tem sido relegada a quintos planos, a aprovação desse projeto virá a tornar a educação pública um dos grandes pilares para o desenvolvimento socioeconômico e cultural do Brasil. Temos a convicção, ainda, de que os políticos, como representantes do povo brasileiro, não devem temer a matrícula de seus filhos na educação pública, pois é lá que se devem educar futuros líderes e os futuros cidadãos conscientes e críticos, assim como acreditamos que os políticos, como nossos representantes escolhidos por nós devem, por bem à coerência, fazer uso consciente dos serviços públicos para que, perto da realidade do país que representam, possam trabalhar verdadeiramente para as melhorias pelas quais esses serviços clamam.

O projeto de lei a que se refere o texto do abaixo-assinado realmente está em tramitação no Senado federal. Trata-se do PROJETO DE LEI DO SENADO (PLS) Nº 480, DE 2007, que, atualmente, foi devolvido pelo Senador Antônio Carlos Valadares, da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, e aguarda “data oportuna” para que se instale uma audiência pública para a discussão da matéria. Em outras palavras, o projeto está “emperrado” na burocracia do Senado e, pelo que vemos, já que o texto é de 2007, continuará assim por um bom tempo.

Até agora, da mesma forma que o projeto de lei, também o abaixo assinado não deu muito certo. Isso pode ter se dado por uma mera falta de divulgação, mas, em minha opinião, ele tendeu a não dar certo, simplesmente, porque não tem muito sedimento: não é com um projeto obrigando filhos de políticos a se matricularem nos colégios públicos que iremos melhorar nossa educação gratuita. O problema é de vontade política mesmo. Não adianta querer lavrar atos de mera pressão se você não costurar os apoios e mentalidades políticas que são necessários para que um projeto seja “eficaz”.

A dança política no Brasil já demonstrou há muito tempo que medidas contrárias aos “interesses” de seus parlamentares tendem a se perder na selva das inúmeras tramitações burocráticas do poder. E isso é, para ELES, providencial. Apesar de não concordar muito com os termos da ideia do senador Cristovam, é um absurdo ver que as ideias contrastantes, simplesmente por serem contrastantes, não apareçam ao povo, nem na “ordem do dia” do legislativo.

Os senadores, diferente do que disse o texto do abaixo assinado acima transcrito, não tem medo da escola pública em si. Tem medo sim de começarem a discutir um dos setores do desenvolvimento nacional que é mais carente: a educação pública. Têm medo eles de se confortarem com alguns dos fantasmas de sua própria negligência e descaso.

Por isso, mesmo não concordando em parte, admito que o abaixo-assinado acima tem até algum mérito: porque ele mostra que algumas poucas pessoas ainda estão de olho nas artimanhas dos nossos velhos senadores. Talvez, se, através de uma pressão popular, essa matéria já tivesse sido votada e discutida, pudéssemos hoje estar com uma lei de incentivo á melhoria do ensino público no país. Afinal de uma ideia, mesmo que inicial, podem surgir muitas outras, basta estarmos abertos ao diálogo...

Por isso amigos, o exemplo dessa pequena iniciativa nos é bastante salutar: todos nós devemos fiscalizar e acompanhar os projetos dos políticos que elegemos. Cobrem a atuação deles, apoiem abaixo-assinados, saiam ás ruas. Alguma coisa tem que ser feita, porque só agindo é que podermos modificar um pouco essa nossa realidade.

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Sem falácias, a educação...

Com pouco pessoal e séria carência nas áreas administrativas e pedagógicas do seu trabalho, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) recebeu hoje a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Junto com o governador Jaques Wagner, o presidente chegou a ser vaiado por sindicalistas de entidades ligadas a professores e trabalhadores da segurança pública. A reclamação era, justamente, a não realização de seleção para a contratação de professores, escrivães e investigadores para os quadros carentes da região.

Como em muitas Universidades Federais do país, a UFRB também reclama da falta de profissionais para o desempenho suas atividades. Segundo reclamações dos manifestantes presentes na solenidade dessa segunda (25), falta de tudo um pouco na UFRB, inclusive professores. Lula retrucou as críticas reafirmando ações engendradas pelo seu governo. Em discurso, conforme publicado no portal Último segundo, o presidente respondeu: "É bom reclamar, mas é importante a gente ter clareza sobre o que está de fato acontecendo neste País. Pesquisem se tem um governo que tenha feito pelo menos 50% do que a gente já fez pela educação deste País."

O fato, porém, é que o governo não tem investido tudo o que deveria na qualidade da educação. O nosso país está ingressando flagrantemente em uma fase preocupante do seu parco desenvolvimento educacional. Segundo a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, existem 16 milhões de brasileiros analfabetos com mais de 14 anos de idade. Mais de 50% das crianças entre 0 e 6 anos não estão na escola, assim como 20% das pessoas entre 10 e 17 anos. E mais: informações do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) dizem que 53% das crianças com até sete anos que vivem no campo são analfabetas. Nas cidades e centros urbanos o número é de 26%.

Como se não bastasse, a política educacional deturpada aplicada desde o Governo FHC, há anos vem formando, nos quadros das nossas escolas públicas, estudantes e vestibulandos cada vez mais despreparados para os meandros do mercado de trabalho e da vida acadêmica. Hoje, quem não estuda em caros colégios particulares, vê sua formação se transformar em algo completamente desgastado. Frente aos filhos da classe média-alta do país, os estudantes pobres das nossas escolas se percebem, no final das contas, abandonados.

Outra situação de alarme é que os campi das universidades estão se degradando (haja vista nossos famosos campi da UFBA em Salvador): má conservação, sujeira e violência assustam os estudantes de muitas Universidades Públicas pelo Brasil. Além disso, os professores têm péssimas condições de permanência em seus empregos. Com salários defasados, os intelectuais que integram o corpo docente das Universidades Federais deixam, cada vez mais, seus empregos em busca de uma colocação no mercado do ensino particular.

Em suma, a educação no Brasil precisa (e muito) ser mais valorizada. Todos os governos são unânimes em se afirmar bons no quesito educacional. Porém, o que se vê na prática são esquecimentos e números ainda assustadores. Quando os governos pararem de falar e começarem a apoiar medidas reais para a melhoria da educação no país, não será mais preciso que se inventem retóricas para engabelar o povo. E só construir escolas não basta. É preciso qualificação na formação de professores, maior incentivo á produção cultural e melhorias nas próprias grades de ensino das escolas e universidades.

Talvez assim, com ações consistentes, fugiremos do castelo de cartas disfarçado que é a nossa área educacional.


Foto:http://www.flickr.com/photos/agecombahia/3563967477

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